A Costureira de Sonhos | Crítica

Já perdi a conta de quantas vezes assisti a temática da relação entre patrões e empregadas domésticas na tela do cinema. No entanto, felizmente, cada filme possui sua linguagem própria e sempre acrescenta algo a mais naquilo que imaginávamos já saturado. Essa é a ideia de A Costureira de Sonhos. Mas não desistam ainda, a diretora Rohena Gera tem muito a falar. O longa nos conta a história de Ratna (Tillotama Shome), uma doméstica que trabalha e mora na casa do patrão recém separado Ashwin (Vivek Gomber). Enquanto ela luta para realizar o sonho de ser estilista de moda, ele vive perdido na vida, tentando agradar a família e os amigos.

Logo de cara, somos apresentados à Ratna através de suas costas. A diretora, frequentemente, utiliza o recurso de um plano traseiro para vermos a reação das pessoas para com a empregada. Todo o filme é sobre o que a sua figura representa para ela mesma e para a sociedade a qual pertence. É raro que Rohena mantenha sua câmera próxima das personagens. Ela mantém uma distância razoável e deixa a história se desenvolver naturalmente. Sua sutileza nos cortes, trilha sonora envolvente e personagens carismáticos, faz com que mergulhemos nesta experiência de cabeça e torçamos para que certas coisas aconteçam mesmo que tenhamos certeza da improbabilidade.

É quase impossível tratar da temática “patrão e empregada” sem fazer algumas comparações, principalmente com tantos filmes recentes sobre o assunto, mas parece que A Costureira de Sonhos tenta fugir daquilo que foi feito nos últimos anos. Para começar, ao contrário de Roma, Que Horas Ela Volta? e Casa Grande, não há crianças no filme, ou seja, não é a relação de uma segunda mãe que é abordada pelo longa. Da mesma forma que a empregada não é considerada “quase da família” em momento nenhum, pelo contrário, por mais que exista um respeito e até sentimentos a mais entre os dois personagens, Ratna é uma empregada e é tratada como tal. Além disso, diferentemente de seus contemporâneos, a personagem não é apenas uma empregada, ela é uma pessoa que tem sonhos e possui uma perspectiva de futuro, por mais que essa perspectiva não seja para todos os assuntos de sua vida (já, já eu explico melhor).

Continuando as inevitáveis comparações, foi difícil não lembrar de Roma, ao perceber que as empregadas conversam entre si com um idioma local, enquanto o patrão, sua família e amigos conversam em inglês. Assim como é possível fazer uma associação imediata à duas cenas de Que Horas Ela Volta?, mesmo que cada filme dê diferentes significados para os atos. A primeira, quando as empregadas dão presentes de aniversário para seus patrões. A segunda, quando elas se permitem transgredir a tudo aquilo que sempre entenderam como certo e errado – no caso do longa brasileiro, a empregada entrando na piscina; no caso do indiano, a empregada chamando o patrão pelo nome, o que remete ao título original: Sir, senhor em português.

Os atores conquistam o espectador com o carisma. Tillotama Shome tem o desafio de interpretar uma personagem inteligente e sonhadora que tem plena noção de que, como mulher, pode traçar passos mais largos em sua vida, porém, como empregada, por causa de sua classe social – ou casta como é dito na Índia – não pode ser iludida por todas as situações que são propostas. É duro acompanhar sua expressão quando Ratna se sente humilhada ou apreensiva, mas também é um alívio ver como ela supera cada desafio e se coloca pronta para o próximo logo em seguida. Enquanto isso, Vivek Gomber tinha tudo para nos apresentar mais um patrão folgado, que está presente apenas para cumprir uma necessidade do roteiro, no entanto, não é isso que acontece. Ashwin é um personagem desenvolvido, que tem uma excelente vida financeira, mas nem por isso é feliz. Ele comete erros, acertos, tem dúvidas e inseguranças perante à cobrança da família. Por mais que, no início, ele se ache mais importante que Ratna, acreditamos em sua mudança ao decorrer do filme.

Por fim, um mérito do longa é retratar uma Índia pouco vista na tela do cinema, completamente fora dos clichês de blockbusters com centenas de figurantes dançando coreografias complexas. Contudo, para mim, A Costureira de Sonhos não é um filme indiano. É um filme universal que questiona o papel da mulher na sociedade falando sobre educação, trabalho, independência e sororidade. No fundo, o que a diretora nos mostra é que, não importa se estamos na Índia, Brasil, México, EUA ou China, as histórias sempre se repetem.