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A Grande Dama do Cinema | Crítica

Sem nenhum suspense, já posso adiantar que A Grande Dama do Cinema é um filme maravilhoso que merece, e muito, a sua atenção. O novo longa de Juan José Campanella nos conta mais um episódio da conturbada relação de um grupo de idosos que mora na mesma casa há mais de quarenta anos. Uma antiga estrela de cinema, um ator frustrado, um roteirista talentoso e um diretor derrotado são surpreendidos por dois jovens corretores que tentam convencê-los a vender o imóvel.

Logo, como já disse que o longa vale a pena, vou apenas explicar o porquê. Antes de mais nada, a cena inicial cria uma ambientação perfeita em torno da casa e dos personagens. Percebemos que a mansão não é apenas um local de moradia, a cenografia é extremamente detalhada, dando uma individualidade e, principalmente, um passado para a casa. A trilha sonora mostra que tudo de material está parado no tempo, enquanto nós sentimos o peso dos quarenta anos para os personagens e de todas as histórias que se passaram entre eles. Detalhe para uma estátua no jardim que é mostrada de diferentes enquadramentos e que, a cada vez que é exibida, parece que está prestes a anunciar um novo acontecimento – como atos de uma peça – até que descobrimos seu real significado para a trama (é de explodir a cabeça).

O roteiro é cheio de ironias, metalinguagens para compor humor inteligente que brinca com as palavras e faz diversas pegadinhas com o espectador. Tudo é apresentado como um jogo entre velhice versus juventude e não me recordo de nenhum filme que tenha representado tão bem a ideia de que “perde-se a batalha, mas não a guerra”. Divirtam-se com a cena da sinuca que, além de engenhosa, é inventiva e bem engraçada. A direção de Campanella também é essencial para o sucesso do longa. Sua câmera, sempre em posições e enquadramentos estranhos e tortos, mostra que algo está errado naquela casa. Dessa forma, até uma simples cena de diálogo, com plano e contra plano, ganha muito mais atenção do espectador. Isso, sem falar no que é mais importante para o filme: os atores.

Marcos Mundstock interpreta o roteirista Martín Saravia. Por mais que, de todos os amigos, ele é o que tem menos tempo em tela, suas falas são as mais interessantes e suas poucas cenas são marcantes. Lembra da sinuca que eu falei a pouco? Esse é seu grande momento! Nicolás Francella é Francisco Gourmand, agente cuja função é conquistar e convencer a atriz sobre a necessidade de vender sua propriedade. Sua participação é boa, porém, não tem tanto destaque. Oscar Martínez surpreende ao transformar e aprofundar o diretor Norberto Imbert. Ao contrário do que acontece com o roteirista, Martínez desfruta de cada segundo em tela. Ele é irônico, observador e sempre possui uma carta na manga para surpreender o espectador. Luis Brandoni está ótimo dando vida ao inocente Pedro De Córdova, um ator desapontado com a carreira e cheio de dúvidas sobre sua real importância na vida dos companheiros. É impossível não sentir pena quando ele arregala os olhos e sua expressividade nos lembra uma criança que foi proibida de brincar na rua com os amigos.

Eis que posso comentar sobre as estrelas do filme: as mulheres. Clara Lago interpreta a grande vilã da história, a agente Bárbara Otamendi. Sua personagem é falsa, ardilosa e, para o temor de todos, muito inteligente: um típico exemplo de antagonista que amamos odiar. Já Mara Ordaz, personagem de Graciela Borges é perfeita em todos os sentidos. Ela consegue caminhar entre uma mulher vaidosa que usa roupas exuberantes, completamente ácida e nem um pouco humilde, a uma pessoa frágil, presa em suas memórias e corroída pela culpa. É através dela que percebemos que o filme, na verdade, se trata de um drama travestido de comédia. Ainda vou esperar uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz – de preferência com a cena da sobreposição de imagens do refletor na hora que anunciarem seu nome. Que cena!

Não irei comentar sobre o – brilhante – final porque quero que todos corram para o cinema assistir a A Grande Dama do Cinema. Tem humor para quem gosta de comédia, drama para quem quer chorar, suspense para quem se interessa em resolver mistérios e até uma bela homenagem a sétima arte. Com certeza, um filme que vale o seu ingresso.

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