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A Sombra do Pai | Crítica

Por: Marcelle Souza

Gabriela Amaral Almeida é uma das minhas diretoras nacionais preferidas. Muitos dizem que Animal Cordial, de 2018, é seu único trabalho conhecido, porém, se esquecem que, antes disso, ela já havia dirigido outros curtas premiados como A Mão que Afaga e Estátua!. Gabriela é a única que, ultimamente, consegue me tirar de casa para assistir a um filme de terror no cinema e não poderia ser diferente com A Sombra do Pai.

O enredo gira em torno da pequena Dalva (Nina Medeiros) que, após a morte de sua mãe e o casamento de sua tia (Luciana Paes) se vê sozinha cuidando do pai (Júlio Machado), que está em depressão. Dessa forma, ela percebe que a maneira mais fácil de resolver todos os seus problemas é trazendo sua mãe de volta do mundo dos mortos. Se você curte ir ao cinema assistir a um horror e se assustar a cada dez minutos, talvez esse não seja o filme mais recomendado. O trabalho da diretora é um terror psicológico focado nos detalhes. Desde um barulho de saco plástico ensurdecedor no meio de um silêncio continuo, a uma montagem que transforma uma festa de São João num verdadeiro Halloween, ou uma câmera colada à nuca dos atores que tira completamente a visão periférica do espectador. O terror está lá o tempo todo, só não precisa ser jogado na sua cara através de figuras grotescas ou notas agudas na trilha sonora. 

Você já imaginou se emocionar em um filme de espírito que não envolva nada relacionado ao Chico Xavier? Ou assistir a um terror sem nenhum susto? Ou pior: perceber que você está angustiado enquanto, para as personagens, não existe terror nenhum?! É esse o tipo de filme que Gabriela trabalha. O longa é cheio de referências a outros clássicos do horror, em especial a Cemitério Maldito, de Stephen King. Além disso, ele não tem medo de brincar com o clichê da imagem macabra das crianças nos filmes do gênero deixando claro, desde o início, que a vida dos vivos é muito mais cruel que os espíritos dos mortos.

Nina Medeiros interpreta Dalva de uma maneira tão natural, que é difícil de acreditar que a atriz esteja realmente representando. Ela é seca, expressiva, desconfiada e corajosa, tratando as entidades como amigas de longa data. Júlio Machado definha diante de nossos olhos ao passo que sua depressão aumenta. Ele vira, praticamente, um zumbi e não precisa de muitas palavras para mostrar que não sabe como continuar a vida sem a esposa. Luciana Paes repete a parceria com a diretora e consegue evoluir uma personagem que teria tudo para ser esquecida no momento em que sai de cena. No entanto, sem ela, sabemos que a história teria tomado outros rumos.

Gabriela Amaral Almeida e o seu acertado A Sombra do Pai são dois exemplos do porquê devemos, sim, valorizar o terror nacional. Um filme que ultrapassa o seu gênero e tira o sono do espectador – mas não pelo medo, e sim pela inquietude provocada por seus questionamentos.

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