FILMES 

B.O. | Crítica

Por: Marcelle Souza

Um filme sobre cinema para quem faz cinema. Esse poderia ser o slogan de B.O., comédia de Daniel Belmonte e Pedro Cadore. A história gira em torno de Pedro (Daniel Belmonte) e Fabricio (André Pellegrino), dois jovens cineastas frustrados que tentam provar para o mundo que conseguem produzir um filme de sucesso. Por isso, resolvem fazer um drama de baixo orçamento para passar em festivais e terem dinheiro para seus próximos longas.

Sendo muito sincera, eu gostei de B.O. A metalinguagem do filme fez com que eu visse várias situações cotidianas da minha vida de estudante de cinema. Os discursos clichês de parentes dizendo que a arte não dá segurança na vida e que deveríamos fazer concursos públicos, as constantes brigas nos sets quando a equipe não consegue se entender, a dificuldade de produzir um filme quando você não tem dinheiro nenhum e tudo é na base de favor (o próprio B.O. foi financiado por uma campanha de crowdfunding), aquele colega riquinho que se acha porque o pai banca todos os filmes e outros white people problems que, se eu contasse aqui, estragaria a experiência do filme. E muito se engana quem pensa que tratar dessas questões “bobas” é um problema. Pelo contrário, esse é um mérito do filme.

Outro mérito é como que acompanhamos ao processo criação do filme dentro do filme desde a brainstorm para a criação do roteiro, até “correr na pós” com montagem que tenta corrigir todos os erros dos dias de gravação. Também é hilário assistir ao ator dedicado que aplica o Método Stanislavski para não sair do papel. Através da câmera do diretor (do filme inventado), conseguimos nos imaginar assistindo verdadeiramente ao resultado no cinema, o que cria vários momentos de vergonha alheia verdadeiramente engraçados. E eu preciso destacar a “cena do aeroporto” cuja fotografia belíssima e trilha sonora tocantes são utilizadas de forma extremamente irônica para exemplificar cada clichê que estamos acostumados a assistir na tela grande.

Mesmo com vários acertos, B.O. erra, principalmente, com seus personagens. Amaral (George Sauma) é insuportável. Por mais que essa seja a intenção, ele segue completamente o arquétipo do amigo sem noção. É chato, inverossímil e 100% unidimensional, mais parece o personagem de um programa ruim de comédia da TV aberta. Outro problema é Nanão Cordeiro, personagem de Hernane Cardoso . Por mais que exista uma tentativa de aprofundar o youtuber através da temática atual sobre a escravidão de inscritos e likes, suas crises de estrelismo são tão ruins que não tem como assimilar esse aprofundamento e nós paramos de nos importar com o personagem rapidamente. Por último, Daniel Belmonte e André Pellegrino estão bem nos papéis de diretor e roteirista desesperados para conseguir completar seus projetos. Até é possível enxergar talento nos personagens, mas os atores são engolidos pelos clichês dos coadjuvantes.

B.O. é um longa cheio de ironias cômicas, a montagem é criativa e se destaca em momentos memoráveis como um final fake e uma festa inesperada no meio das gravações. A direção é autoral e faz questão de se mostrar presente através de uma câmera na mão e bem íntima e tremida. No entanto, no meio de várias qualidades, o filme pode perder a atenção do espectador pela especificidade do seu roteiro. Se você não entendeu alguns dos termos que usei para esta crítica, como o Método Stanislavski ou “correr na pós”, não se sinta mal. Isso é porque você não pertence ao nicho que realmente deve se sentir atraído pelo filme. Como eu disse no início, B.O. é um filme sobre cinema para quem faz cinema e, exatamente por isso, sua maior qualidade é também seu maior defeito. Enquanto alguns irão sair se sentindo representados da sala do cinema, talvez outros não tenham nem a experiência de um sorriso de canto de boca.

Relacionados

[gs-fb-comments]