FILMES 

Blade Runner 2049 – Crítica

Sempre achei que o cultuado Blade Runner, o precursor do estilo cyberpunk, não precisasse de uma continuação. Mas, como o mercado cinematográfico – e até o televisivo -, tem sobrevivido de continuações e remakes, por que não tentar dar prosseguimento aquela história dirigida por Ridley Scott? Eis que surge essa obra prima, Blade Runner 2049, que não poderia ser melhor conduzida pelo também maravilhoso Denis Villeneuve, que já provou seu talento tanto na ficção (com A Chagada) quanto no gênero policial (Os Supeitos).
O filme se passa 30 anos depois do original, após a falência das Indústrias Tyrell e da ascensão da corporação de Niander Wallace (Jared Leto). O novo Blade Runner é K (Ryan Gosling), que caça modelos de replicantes antigos com o objetivo de “aposentá-los”. Ele investiga um caso que o levará ao paradeiro de Deckard (Harrison Ford).
 O filme é visualmente lindo, que estética

A construção do personagem de K é fascinante pois atrás da fachada fria há uma vulnerabilidade bem sutil. Podemos perceber isso de forma mais clara através do seu relacionamento com Joi (Ana de Armas). Seu personagem é muito rico e melhor explorado que o próprio Deckard. Aliás, se você está muito a fim de ver o Harrison Ford, vai ter que esperar um bocado, pois ele demora a aparecer na trama. Mas conforme a investigação vai avançando, há um suspense tremendo com relação a memórias implantadas ou reais que se tem no cérebro e essa dúvida nos intriga até o fim.

Se o longa de 82 apresentou aquele universo e contou uma história relativamente simples envolvendo quatro replicantes fugitivos e o relacionamento entre Deckard e a fria Rachael (Sean Young), “2049” é algo ainda maior, embora Villeneuve mantenha a narrativa bem intimista, focada no introspectivo K, que está presente em quase todas as cenas do filme.
O gênio cego interpretado por Jared Leto infelizmente aparece menos do que o público espera. Afinal, seu método de interpretação teve um marketing tão pesado… No entanto, ele está ótimo, como sempre. Já Luv (Sylvia Hoeks), que vive a assistente de Wallace, que também é replicante, é uma personagem importante e a principal responsável por agitar o filme. Robin Wright, Dave Bautista e Mackenzie Davis também estão sensacionais em seus respectivos papeis.
Harrison Ford tem aparição pontual porém extremamente importante na trama

Tecnicamente falando, o longa é muito bem conduzido, produzido e continua com a estética impecável. A atmosfera neo-noir continua no ar (juro que não é trocadilho rs). O responsável pelo visual contemporâneo é o competente Roger Deakins. O figurino e os efeitos visuais também estão lindos, tudo na mesma vibe do original, só um pouco mais futurista do que o primeiro. E a trilha sonora de Hans Zimmer? Ele trabalhou novamente com Benjamin Wallfisch (anteriormente em “Dunkirk”), com sua agressiva trilha, bem eletrônica e pesada, ajudando a dar o clima ideal. Eles conseguem prestar homenagem a Vangelis com algumas notas do primeiro filme, especialmente perceptível durante o angustiante clímax da produção.

O contexto da trama levou em consideração a evolução tecnológica e sociopolítica de um futuro ainda mais distante. Ele toca novamente em pontos abordados em seu antecessor como colonialismo, o papel formador das memórias, o sincretismo cultural, a manifestação do religioso e a definição do humano em relação à máquina, mas também aborda novas ideias, como nossa obsessão em armazenar informação e a dependência do digital. Não poderíamos esperar por menos, não é mesmo?
Nota: 5/5

Relacionados

Comments are closed.