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Compra-me um Revólver | Crítica

Engana-se quem pensava que Pablo Escobar era uma figura essencial para filmes sobre cartéis de drogas. Compra-me um Revólver escolheu uma criança como personagem principal de sua história mostrando uma perspectiva pouco explorada no cinema. O longa conta como a pequena Huck (Matilde Hernandez), uma menina que se esconde atrás de uma máscara e roupas largas, ajuda seu pai, viciado, a cuidar de um campo de beisebol frequentado por traficantes.

Com direção e roteiro de Julio Hernández Cordón, o filme nos é apresentado como um relato da protagonista. Huck narra os acontecimentos quase sussurrando, como se estivesse escrevendo em um diário e o que assistimos são suas palavras. A cenografia do pequeno ambiente é muito bem elaborada e faz que com que entendamos a precariedade daquela vida com um único plano. Visualmente, o filme é muito bonito. A montagem e a fotografia se fazem presentes através de cortes abruptos que nos causam uma confusão mental muito próxima da que a personagem vive e cores fortes que nos saltam ao olhar no meio de todo um ambiente seco e caótico. Há uma cena, após um confronto, onde Huck anda no meio de vários corpos e eles são representados como desenhos infantis que fez meus olhos encherem de lágrimas por tentar compreender tudo o que se passa na cabeça de uma criança tão pequena em um ambiente tão hostil.

A relação entre Huck e seu pai é verdadeira. Sentimos a preocupação de um com o outro: enquanto ela entende o trabalho e o vício do pai, ele se mostra destruído por sua realidade, mas, ainda assim, desesperado para se manter vivo e proteger a filha custe o que custar – inclusive deixá-la acorrentada e fantasia-la de homem para que não a perca. Porém, é na extensão dessa relação que o filme se perde. Somos apresentados há diversos fatos e personagens que abrem uma série de perguntas que nunca são respondidas. É impossível sair do cinema sem a sensação de que faltou algo ali. Por que eles continuam naquele lugar mesmo controlado por traficantes? O que aconteceu com o resto das pessoas que moravam nas redondezas? De onde surgiram aquelas crianças que parecem os meninos perdidos de Peter Pan? E a história da sorte? Por que o pai abandona a filha no momento mais perigoso da trama? Por que a escolha desse fim? E por que ela nunca consegue obedecer ao pai mesmo sabendo do perigo? Essas e muitas perguntas me deixaram com a sensação de que o longa quis ser pretencioso e deduzir que essas informações não seriam importantes para os espectadores, focando apenas no curto espaço de tempo que a história se passa. O problema é que nenhum filme acontece apenas na tela do cinema, ele precisa ser construído e pensado em todas as direções, incluindo o passado e o futuro.

Dessa forma, Compra-me um Revólver termina sendo um longa com potencial desperdiçado que possui um excelente início, um elenco competente, personagens interessantes e um visual brilhante, mas se perde ao esquecer que, em um mundo desumano, pequenas atitudes são pagas com a vida. Assim, aquilo que poderia ter sido uma bela análise sobre como a crueldade e a humanidade podem andar lado a lado, termina se tornando um grande questionamento sem resposta nenhuma e difícil de acreditar.

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terranerdica
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