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Crítica | As Herdeiras (Sem Spoiler)

Apesar das últimas ações polêmicas tomadas pela Ancine, se há algo que não podemos reclamar da agência, é com relação as co-produções entre Brasil e outros países. Há um número cada vez maior de filmes sendo produzidos e, muitos deles são de ótima qualidade.

As Herdeiras é mais um exemplo deste tipo de filme. O longa metragem é produzido por Brasil, Paraguai, Uruguai, França, Alemanha e Noruega. Apesar disto, a execução dele é centrada apenas no Paraguai, com atrizes e diretor nascidos no país e localizado em Assunção.

O filme conta a história de Chela (Ana Brun), uma senhora por volta de 60 anos que vive junto com Chiquita (Margarita Irún). Por anos elas levaram uma vida tranquila devido a uma boa herança recebida, mas, quando a situação financeira começa a apertar, elas se vêem obrigadas a vender boa parte de seus bens. Em meio a essas vendas, Chiquita é acusada de fraude e acaba sendo presa.

Para conseguir levantar uma renda além das vendas, Chela começa a trabalhar como taxista para senhoras ricas da região. Durante um de seus serviços, ela conhece Angy (Ana Ivanova), uma mulher mais jovem, que possui em torno de 40 anos de idade. A medida que sua relação com Angy se aprofunta, Chela entra em uma jornada de auto-descobrimento.

A direção de Marcelo Martinessi é extremamente eficaz. Sempre com angulações de câmera focadas em estabelecer uma certa reclusão de Chela com os outros e, até mesmo, consigo. Vemos diversos planos filmados pelas costas da personagem, planos filmados através de janelas, frestas de portas, entre outras coisas, apresentando o distanciamento da personagem principal com o mundo ao redor. A direção de fotografia de Luis Armando Arteaga também ajuda a estabelecer esta sensação, além disso, realiza um ótimo uso de iluminações naturais e uma paleta de cores frias.

O  roteiro, mesmo que recheado de temas importantíssimos e atuais, é extremamente simples e mundano. Nós acompanhamos o novo cotidiano de Chela, chegando até a ser um pouco repetitivo e parecer que o ritmo do filme é lento. No entanto, esta simplicidade faz com que o roteiro aborde de forma sútil diversas questões interessantes de forma naturalista. Observamos uma história a respeito da sexualidade de uma mulher sexagenária, um tema pouco abordado, que é contado de forma bem realista e, ao mesmo tempo, doce.  Além disso, devido o distanciamento da personagem principal, o roteiro, propositalmente, evita desenvolver demais suas personagens, focando exclusivamente na sua narrativa.

As atuações também colaboram para a beleza do longa-metragem Ana Brun demonstra toda a insegurança e distanciamento de sua personagem. Margarita Irún é mais dura, severa e direta. Já Ana Ivanova se demonstra uma personagem de espírito livre, que mostra um novo mundo para Chela. 

Nota: 4/5

As Herdeiras é um filme extremamente naturalista, com uma história simples e mundana. No entanto, isto não tira a beleza, muito menos a importância deste longa metragem, que conta uma história pouco abordada de forma sútil e com uma narrativa que sabe abordar as questões femininas. 

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