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Crítica | Bright é o filme que o David Ayer teve liberdade pra provar que não pode ter

Aquela ideia interessante e o potencial totalmente desperdiçado.

Há um ano e meio atrás, o diretor David Ayer lançava nos cinemas o filme do Universo DC Esquadrão Suicida alegando que não foi o filme que havia planejado. E certamente não era, pois é perceptível que nos primeiros trailers, em comparação aos últimos, o tom mudou completamente e ao assistir o filme, fica clara a pós-edição corrida.

Não é de hoje que estúdios como a Warner Bros. Pictures e a 20th Century Fox são conhecidos por emburrecer o filme, é uma tradição principalmente quando envolve orçamento alto. Muitos executivos põe a mão e cortam a autoria do diretor para não arriscar, e isso acaba prejudicando demais o filme. Porém, os problemas de Esquadrão Suicida vão muito além da intervenção da Warner, e agora, com a liberdade que a rede de stream Netflix pôde dar ao diretor, este aproveita para lançar um conteúdo próprio e totalmente autêntico. O resultado é o seguinte – não teve intervenção na pós-edição, mas os problemas ainda são os mesmos. Uma pena, pois a ideia é simplesmente fantástica, que funcionaria muito bem para uma série de quadrinhos ou uma graphic novel, mas não em um longa-metragem original. Conta sobre um universo em que elfos, orcs e outros seres existiram e existem até hoje, dividindo a sociedade numa metáfora clara à segregação.

Daryl Ward (Will Smith) é um policial afro-americano, o típico personagem que serve para a referência do racismo e da representatividade em quase todos os filmes policiais e aqui ele não representa a minoria, o que em si já é uma quebra de paradigma e uma ideia muito boa para trabalhar um assunto tão delicado que provavelmente não chamaria tanta atenção se não fosse por seu parceiro Nick Jakoby (Joel Edgerton) que é o primeiro policial da raça dos orcs – inclusive seu nome de batismo é claramente uma mistura de típicos nomes de negros e sobrenomes latinos nos filmes americanos, servindo de referência ao preconceito às duas culturas, bem presente em cidades grandes como Nova York, ou nesse caso, Los Angeles, onde se passa a história. Aqui, vemos os orcs marginalizados simplesmente por uma dívida história de mais de dois milênios atrás, quando estes escolheram o lado errado numa guerra, enquanto os elfos são os ricos e a elite da sociedade simplesmente por herança e nada de meritocracia.

Até aí o filme é ótimo, com investigação envolvendo corrupção e diálogos que trabalham muito bem a história do preconceito e construindo personagens em potencial para desperdiçá-lo a partir da metade do segundo ato, quando o filme deixa de ser uma fantasia realista e se torna um épico sobrenatural situado em Los Angeles, com direito a varinha mágica, ressurreição, rituais para trazer de volta um antigo deus, explosões – tudo que te incomodou em Esquadrão Suicida, inclusive a percepção forçada de que família é quem nós temos ao lado. Parece que vemos dois filmes, e não que isto seja um problema, o problema é quando o segundo não é tão bom quanto o primeiro e a mudança de tom não é nada sutil.

Nota: 3/5 (Regular)

É claro, não existem problemas de edição, montagem, mas também nada a elogiar, nem mesmo ao trabalho visual de fotografia e efeitos que quase não existem e nem mesmo a lista sonora que claramente foi escolha do diretor. Vale como um filme que se você quiser assistir até a metade você terá muito o que discutir sobre a sociedade, mas um potencial desperdiçado caso você resolva assistir até o final.

 

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