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Crítica | Ponto Cego

A indústria audiovisual estadunidense vem passando por um momento particular e extremamente interessante: há uma grande quantidade de produções realizadas com o intuito de questionar o papel do negro na sociedade norte-americana. Desde o clipe visceral de This is America à sitcom mais tranquila de Blackish, passando pelo terror psicológico de Corra!; estes filmes buscam questionar temas como o racismo estrutural desta sociedade, presente em declarações veladas, na brutalidade policial, entre outras atitudes, que, normalmente, passam incólumes.

Ponto Cego figura entre estas obras e, certamente, já se destaca como uma das mais importantes a tratar desta temática. Logo no primeiro momento da projeção podemos perceber que este longa metragem possui um estilo próprio. Situado em Oakland, California, vemos uma tela dividida mostrando duas facetas da cidade: o lado “raiz” mostrando a população local, majoritariamente negra e pobre e, em contraponto, o lado gentrificado, com a chegada da população hipster, majoritariamente rica e branca.

Esta dualidade é um dos temas centrais da trama. A história retrata a amizade entre Collin (Daveed Digs) e Miles (Rafael Casal). O primeiro é um homem negro que está nos seus três últimos dias de liberdade condicional, por isso, ele evita qualquer encrenca que possa o levar de volta a cadeia. Já o segundo é um homem branco, que nunca foi preso, mas, por ter vivido em um bairro perigoso a vida toda é impulsivo e imprudente, possuindo uma pose durona, com o corpo todo tatuado e utilizando grillz nos dentes.

Outro tema extremamente importante para o filme diz respeito é a identidade. Collin passa por um intenso processo de auto questionamento  após presenciar o assassinado de um jovem negro pelas mãos de policiais truculentos. Ele passa a indagar qual seu papel na sociedade e qual o papel daqueles ao seu redor. Ele questiona o ponto de vista dos outros com relação a ele e como esses outros agem no meio em que ele se insere. 

Essas questões são também inseridas na forma como a narrativa é contada. O longa transita constantemente entre a comédia e o drama de maneira muito bem dosada. O ritmo do filme é vital e preciso. A montagem faz questão de não deixar nenhum excesso, fazendo com que o filme mostre o necessário e se mantenha fluido. As rimas são constantes também, sejam nas falas de seus personagens ou nos cortes e planos justapostos. A edição de Gabriel Flamming é precisa.

O roteiro é escrito por Digs e Casal, que também são melhores amigos fora das telonas, portanto, nada mais certo do que centrar a história na relação e na química dos dois protagonistas. Além disso, o roteiro é uma espiral crescente, quanto mais o público mergulha na dupla de personagens, mais intenso o filme se torna. As falas são muito bem escritas, os momentos cômicos adicionam realismo a trama e os momentos de rima servem como uma espécie de quebra de quarta parede com a função de exprimir o sentimento dos personagens e mexer com o espectador.

A direção do estreante Carlos López Estrada é um excelente trabalho para um primeiro longa metragem. As rimas visuais e as escolhas de planos ditos acima são muito bem encaixados. A apresentação da Oakland gentrificada através de travellings  e do uso das cores através da fotografia de Robby Baumgartner dão um tom vibrante e pulsante para o local, além de suavizar o tom do filme. Além disso, ao decorrer a trama, percebemos uma perda de algumas destas cores e a presença mais fortes de outras, como o vermelho e o preto. 

As atuações de Digs e Casal são o que movem o filme. Os dois possuem uma química incrível, o que possibilitam um grande dinamismo tanto nas cenas cômicas, quanto nos momentos mais dramáticos. Os personagens secundários possuem participações pontuais e momentos cruciais para a trama devido as suas atuações, como o menino que interpreta o filho de Miles ou Ethan Embry que faz o policial que Collin viu matar um jovem negro.

Nota: 5/5

Ponto Cego foi um filme que me pegou completamente desprevenido. Eu não dava nada por este filme e fui assisti-lo com a menor quantidade de informação possível, acabei saindo do cinema questionando diversas coisas da nossa sociedade e arrasado. Por isso, tentei fazer uma crítica entregando o mínimo da história e focando em alguns detalhes interessantes para te convencer a assistir a esta obra, pois vale a pena. É um longa divertido, com diversos momentos cômicos, mas que retrata uma realidade crua, dura e visceral. É um filme necessário e, certamente, uma das melhores produções do ano.

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