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Kingsman: O Círculo Dourado – Crítica

Sequência da inesperada comédia de espião da equipe de Kick-Ass traz de volta tudo o que você gostou no primeiro filme em dobro e esquece tudo o que você não gostou.

O diretor Matthew Vaughn, responsável por levar aos cinemas o Stardust de Neil Gaiman, – e que inclusive, acredito que seria um bom diretor para a adaptação de American Gods, do mesmo autor – apresentou ao público sete anos atrás a sua capacidade de trazer uma comédia de ação em Kick-Ass: Quebrando Tudo, com boas sequências de ação, a violência almost Tarantino e personagens empáticos que fazem você ter vontade de continuar assistindo, mas que por motivos ambiciosos – não da forma ruim, tanto que eu faria o mesmo – o diretor largou o funny-action-thriller para levar aos cinemas o reboot de X-Men em Primeira Classe, o qual todos gostaram, mas perdeu o posto para o antigo diretor Bryan Singer por seu retorno na sequência. Kick-Ass 2, que acabou por ser dirigido por Jeff Wadlow, não foi tão bem, e o ovo de ouro de Vaughn se perdeu – por um tempo, pois de onde veio Kick-Ass, poderia vir muito mais.

Do autor de Kick-Ass, Mark Millar, responsável por histórias em quadrinhos icônicas como Superman: Entre a Foice e o Martelo, – uma releitura da história do Superman e outros personagens da DC Comics ambientados na União Soviética – O Procurado, – outro filme que, caso fosse adaptado por Vaughn, poderia ser bem melhor – O Velho Logan, – o qual inspirou o visual do filme LoganOs Supremos, – releitura contemporânea de Os Vingadores que inspirou bastante a franquia do cinema – Guerra Civil – outro que, quem sabe, caso fosse adaptado também por Vaughn, seria melhor que o dos irmãos Russo? – e é claro: Kingsman, este último, mais novo e que vinha ganhando espaço, teve a chance então de ir aos cinemas pelas mãos do mesmo responsável pelo sucesso de Kick-Ass.


Saiba mais: universo dos quadrinhos de autoria do Mark Millar agora é aquisição da rede de streaming Netflix.


Sinto dizer que, na minha opinião, não acho o primeiro filme Kingsman: Serviço Secreto tão grandioso quanto tanta gente acha. Acho um filme que apenas superou expectativas, que até a metade eu me perguntei Por que é que estou assistindo esta bosta? Até que finalmente iniciam-se as sequências de ação e começo a achar que todos os filmes de ação deveriam aprender com este, mas francamente, atuação e roteiro deixam bem a desejar. Porém, este segundo filme, agora com mais orçamento dedicado graças ao sucesso inesperado, ganha muito mais tanto com as sequências de ação, quanto com o elenco, atuação, direção, roteiro, montagem, fundo sonoro e tudo mais. O filme começa pouco tempo depois de onde o primeiro parou, provavelmente um ano, tentarei me segurar quanto a spoilers da sequência, mas spoilers do primeiro são inevitáveis, assista.

Gary Eggsy Unwin –Taron Egerton retorna para o papel – agora segue carreira como substituto do agente Galahad após a morte de seu mentor Harry Hart – Colin Firth, o rei gago de O Discurso do Rei, ele mesmo. Porém, já começa o filme sendo atacado por seu antigo colega de avaliação, Charlie Hesketh, – Edward Holcroft – o qual foi reprovado nos insanos testes para o Batalhão das Forças da Polícia Especial Agência Secreta Kingman, numa sequência incrível de perseguição de táxi! Sim, de táxi! Cortando as ruas de Londres. Eggsy não esperava que Charlie, após ser reprovado pela Kingsman, agora fazia parte de uma sociedade secreta conhecida como o Círculo Dourado, um cartel escondido nas montanhas da América do Sul, responsável por quase toda a venda de drogas pelo mundo que, liderado pela vilã Poppy – Juliane Moore de Para Sempre Alice, ela mesma – que tem um plano vilanesco que novamente tira sarro de filmes de espionagem, em especial da própria franquia 007, que é de se tornar a maior indústria farmacêutica do mundo contaminando todos os usuários com uma febre azul que provoca distúrbios mentais até levar a morte, caso as nações não a apoiem.

O próprio plano da vilã já tira sarro dos filmes de espionagem, quando seu primeiro contato de ameaça terrorista é para a tevê americana, num comentário do tipo A ONU deve estar se coçando de ciúmes já que meu primeiro pronunciamento foi para o presidente dos Estados Unidos para que este libere o comércio das drogas, com um argumento com Legalize, salve vidas, numa clássica discussão sobre o comércio de drogas ser ou não beneficente. E a reação do presidente só acrescenta ainda mais a sátira política do filme, quando o Presidente – Bruce Greenwood, o Capitão Pike do reboot de Star Trek – é uma clara menção a Donald Trump, não somente pelo visual, mas por comentários tão absurdos que um presidente não faria, tal como –Não negociamos com terroristas nem para salvar vidas que, como podemos ver, não são tão inocentes assim ou  Uma vez nos livrando dos drogados, nos livramos de mais um problema, representando o pensamento republicano, divergindo da Chefe de Estado – Emily Watson de Assassinato em Gosford Park – democrata – uma clara menção a Hillary Clinton.

Ao mesmo tempo, o público é apresentado a uma expansão do universo Kingsman ao conhecer o primo americano Statesman, uma agência filha dos mesmos conceitos que geraram a Kingsman, porém, fundada nos Estados Unidos e disfarçada não de alfaiate, mas de indústria de bebida alcoólica que, gerenciada por Champanhe, – Jeff Bridges, o Kevin de Tron quase irreconhecível – todos os agentes recebem nomes de bebidas alcóolicas, como o agente Tequila – Channing Tatum, o clássico astro de quase todos os filmes adolescentes que simplesmente descobriu que é perfeito fazendo papel de idiota – e o agente Whiskey – Pedro Pascal, o Príncipe Oberyn de Game of Thrones. Além da secretária Ginger – Halle Berry, a super-heroína negra quase irreconhecível também – fazendo uma clara alusão ao opressão machista dentro das agências. O novo elenco não só acrescenta ótimas risadas e sequências de ação como também traz o absurdo, porém aceitável – por que não? O filme não se leva a sério mesmo – retorno dos mortos do original agente Galahad. E sobre não se levar a sério, é este conceito que faz com que a produção explore muito mais possibilidades que, caso fosse um filme que fizesse parte de um universo maior, tal como Deadpool que apostou no humor +18 mais garantido, não teria levado ao cinema cenas de constrangimento que com certeza o espectador vai ficar de bocas abertas se perguntando se já havia imaginado ver algo do tipo no cinema – depois me contem o que acharam da sequência do festival de música.

Kingsman: O Círculo Dourado também traz de volta os plano-sequências de ação e inova com as possibilidades das câmeras, além de contar a história de forma que não fica cansativa e que funciona dentro do universo apresentado, traz também um fundo sonoro como há muito tempo não se vê – a batalha final ao som de uma versão country de Word Up do Cameo, por exemplo, que ficou incrível!

Nota: 5/5 (Excelente)

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