MÚSICA 

Muse | Novo álbum deixa a desejar

Resumo: O oitavo disco da banda demora a conquistar. Há pérolas escondidas no álbum, mas, no geral, precisa de um grande esforço para chegar até o final e não apresenta nenhum hit instantâneo.

O trio britânico Muse tem mais de 20 anos de carreira e se tornou um verdadeiro gigante dos palcos mundiais. Os riffs estrondosos, setups de palco incrivelmente trabalhados e, claro, uma fanbase extremamente dedicada já trouxeram a banda ao Brasil em três ocasiões só nos últimos cinco anos (Rock in Rio 2013, Lollapalooza 2014 e dois shows solo em 2015) — e não para por aí: a banda foi confirmada para o Rock in Rio 2019.

Como de se esperar de uma banda com mais de 20 anos de carreira, é inegável que o Muse experimentou várias fases musicais diferentes. O novo álbum, Simulation Theory, marca mais um experimento do grupo. O conceito é fortemente influenciado pelo estilo dos anos 80: a capa do álbum foi desenhada por Kyle Lambert, responsável pela arte de Stranger Things.

A arte do álbum, desenhada pelo artista de Stranger Things, incorpora uma série de elementos dos anos 80.

“Foi minha ideia criar algo que se parecesse com um pôster de filme (…) um pôster de filme meio vintage era algo que queríamos fazer há muito tempo”

Dom Howard, baterista do Muse, em entrevista à Kerrang!.

Faixa a faixa

Justamente pegando emprestado esse conceito oitentista, o álbum começa com a faixa Algorithm e sua (longa) introdução, marcada por um sintetizador que você encontraria tanto na trilha sonora de Stranger Things quanto em um álbum do New Order. A canção é um dos pontos fortes do disco, e é um dos poucos momentos em que realmente se vê algo com a cara do Muse. Vale conferir a versão “Alternate Reality” dela, presente na edição Deluxe do álbum: adiciona um gostinho mais especial, e eu não ficaria surpreso de vê-la no trailer do próximo blockbuster distópico hollywoodiano.

The Dark Side, lançada como single pela banda, é uma canção sólida, apesar de pouco extraordinária. Tem uma levada meio dançante que com certeza vai fazer você se pegar batendo o pé no ritmo da música no transporte público. A versão “Alternate Reality” dela é bem mais fúnebre e mais no território do Muse — é guiada principalmente na voz e no piano, e Matt Bellamy está completamente em casa nesses dois instrumentos.

Pressure, que tem Terry Crews como estrela do clipe, é, discutivelmente, a faixa mais alegre (e chiclete) do álbum. Vemos a volta dos backing vocals que a banda utilizava bastante nas fases anteriores da carreira.

Propaganda é uma faixa que começa assustando o ouvinte (sério, diminua o volume quando for ouvir). É peculiar por causa dos efeitos nas vozes, em especial na introdução e durante o refrão, mas não causa ódio ou idolatria.

Break It To Me é mais uma experimentação da banda. Mas a impressão que causa é que a música está ali simplesmente para dizer “fizemos algo diferente”, e não necessariamente leva a direção nenhuma.

Something Human, outro single do disco, retoma a direção das baladinhas água-com-açúcar do Muse — é a Madness (2012) do Simulation Theory. Não é inovador, e no contexto desse álbum, isso não necessariamente é ruim.

Thought Contagion também foi lançada como single, e toma uma direção levemente mais dark que o resto do álbum — o que é extremamente bem vindo. Também é uma música que menos sai da zona de conforto da banda, e uma das poucas que apresenta alguma familiaridade com o trabalho anterior do grupo que não a voz de Matt Bellamy.

Get Up and Fight poderia ser uma canção pop cantada por literalmente qualquer outra pessoa. A introdução, com vocais femininos, causa certo estranhamento. O refrão é bom, mas, no geral, a canção inteira é estéril e dá a impressão de ser genérica — pense em Revolt (2015). É uma das músicas que menos tem a cara do Muse no disco, mas ainda assim dá pra aproveitá-la.

Blockades é facilmente um dos destaques do disco, junto com Algorithm. Retoma a direção do Muse pós-The Resistance, e de uma forma positiva.

Dig Down, primeiro single do álbum, mostra um refrão preguiçoso e é mais uma na lista de “canções pop genéricas”. Foi um divisor de águas entre os fãs quando saiu: há quem odiou, há quem odiou muito, e há quem gostou, mas é difícil não ter opinião sobre essa canção — e eu estou no conjunto dos que odiou.

The Void, última canção do álbum, marca um excelente uso dos sintetizadores para submergir o ouvinte numa atmosfera quase fúnebre. É uma música com sua carga emocional e carrega uma mistura perfeita de sintetizadores e violinos no fundo. Essa, sim, marca um acerto na experimentação do trio: é, de longe, um dos destaques do álbum, e o jeito perfeito de encerrar o disco.

Impressões finais

No geral, o disco tem a pretensão de inovar, mas passa longe disso na maior parte do tempo. É um trabalho sólido, apesar de preguiçoso em partes, que com certeza não vai agradar os fãs mais antigos da banda (grupo no qual eu me incluo). A ideia de inovar é louvável — afinal Absolution, Black Holes & Revelations e The Resistance são grandes álbuns e nasceram de inovação —, mas a forma com que o trio decidiu colocar a experimentação em prática parece não ter sido a mais acertada. A falta de grandes sucessos e de grandes “retornos” ao Muse antigo já desapontava alguns fãs desde o último álbum, Drones (2015) (e novamente me incluo nesse grupo). Drones deixou a desejar em alguns pontos, mas, ao mesmo tempo, trouxe obras-primas como Psycho e The Handler, que parecem saídas direto dos primeiros álbuns. Simulation Theory não apenas se propõe a uma ruptura com o trabalho anterior da banda (e é possível discutir se isso por si só já foi um equívoco), mas também erra completamente a mão na maneira com que constrói essa ruptura.

Nota: 6,5/10

Relacionados