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O Rei do Show – Crítica

 O show business é feito por sonhadores.

Ou pelo menos é isso que Hollywood tem tentado vender em seus mais recentes musicais. Concordando ou não com essa afirmativa na íntegra, é inegável que pelo menos alguma parcela do que vemos é feita por aqueles que se atrevem sonhar e ousar ao colocar o sonho em prática. O Rei do Show trata justamente da história de um sonhador, o famoso Phineas Taylor Barnum.

P.T. Barnum é relacionado, constantemente, à criação do show business. Conhecido de várias formas, tais como “avô da publicidade” ou “príncipe das falcatruas”, é amado por uns e odiado por outros. O showman mais famoso do século XIX é uma figura fascinante e vende muito bem o ideal de que o que nos limita é apenas nossa imaginação, pelo menos no cinema. Barnum veio de uma origem humilde e ao tentar a vida em uma cidade grande descobriu que era capaz de ganhar dinheiro com atrações “duvidosas”. Uma de suas primeiras atrações foi uma mulher negra, a qual ele apresentava como a mulher mais velha do mundo. Até que o público perdeu o interesse e ele então inventou uma história ainda mais duvidosa sobre a origem dela. O que Barnum descobriu foi que as pessoas gostam de ser enganadas e ainda pagam por isso. Inclusive, essa máxima, repetida algumas vezes durante o filme, é a parte mais próxima da história real desse cativante enganador.

O Rei do Show é um musical visualmente bonito, um verdadeiro espetáculo no que diz respeito aos passos de dança e às sequências musicais. O filme tem um formato conhecido, que mescla falas tradicionais do cinema com as músicas encaixadas numa determinada situação. É válido ressaltar que os compositores responsáveis pelas bonitas canções do filme são Benj Pasek e Justin Paul, os mesmo responsáveis pelas canções de La La Land e que levaram o Oscar na edição passada da premiação. Entretanto não vemos nessa coletânea uma música de destaque, diferente do trabalho alcançando com City of Stars. Você pode não ter gostado de La La Land e nem concordado com todas as indicações, mas sem dúvida você saiu da sala de cinema com a melodia entoada por Ryan Gosling na cabeça, o que de fato não se repete neste novo trabalho. Isso não configura como um problema do filme, pois como dito anteriormente as músicas são bonitas, empoderadoras e possuem uma mensagem.

P.T. Barnum é interpretado por Hugh Jackman, que dá ao personagem ainda mais a ideia de sonhador. Jackman entrega o personagem sugerido muito bem, canta, dança e faz um trabalho respeitável. A sintonia com Michelle Williams, que interpreta Charity Barnum, a esposa de Barnum, está exatamente no ponto. Inclusive, os dois entregam um dos números mais bonitos do filme, ao dançarem no terraço de sua casa em meio a lençóis que também dançam. Outra personagem importante no filme e na história do real P.T. Barnum, é a soprano sueca Jenny Lind. Interpretada pela também sueca Rebecca Ferguson, a ideia era mostrar a personagem que foi importante para o empresário em diversos aspectos. No entanto, o possível romance dos dois é vendido pelo filme como um mal entendido, tornando o showman um verdadeiro homem de família e Jenny uma mulher confusa que se aproveitou de uma situação. Ferguson faz uma personagem de classe, talentosa e possui um dos figurinos mais encantadores do filme.

Ainda sobre interpretações e casais, temos o romance vivenciado por Phillip Carlyle (Zac Efron) e Anne Wheeler (Zendaya). Ele, um herdeiro bem apessoado e culto, não só literalmente foge com o circo, mas também se apaixona por Anne, uma mulher negra e uma das atrações de Barnum, chocando assim a sociedade. Lembre-se sempre que o filme se passa no século XIX, um romance como esse era realmente algo escandalizador. Os dois possuem química e Zendaya está afiadíssima como uma trapezista. No que diz respeito a Zac Efron, ele entrega um personagem consistente, mas sem nenhum grande destaque. Se o roteiro permitisse, com certeza o Sr. Carlyle seria um personagem bem mais interessante e desafiador para Efron, que como todo mundo sabe é bastante familiarizado com passos de dança e cantoria.

Dentro do espectro de personagens secundários e roteiro, devemos sem dúvida falar sobre as atrações exibidas no Circo de P. T. Barnum. No filme, Barnum é colocado como um homem não só visionário, mas de compaixão com aqueles que são marginalizados socialmente simplesmente por serem diferentes. Dentre a lista de atrações temos negros, uma albina, a famosa mulher barbada, um anão, um obeso e por aí vai. Durante boa parte do filme, esses personagens só servem para compor o elenco de dançarinos e dar grandiosidade ao caráter do personagem principal. O filme só mostra uma faceta diferente deste personagem já para sua última parte, quando ele não permite que suas “atrações” sejam vistas na apresentação de Jenny Lind. Porém, como é um filme da época de natal e para celebrar as diferenças, tudo se resolve facilmente, deixando essa parte do roteiro a desejar. Esse é outro ponto da ficção que foge da história real, já que P.T. explorava suas verdadeiras atrações e não estava interessado em empoderá-las, muitas vezes era ele quem colocava adjetivos ruins com o intuito de gerar lucro. O interessante desse núcleo é o momento em que eles realmente vão atrás de se empoderar e sem dúvidas mereciam mais destaque na divulgação do filme e da história, já que o famoso show só era possível por conta das peculiaridades dessas pessoas. Um último destaque de personagem é o papel do crítico de teatro James Gordon Bennett (Paul Sparks), que também é uma figura real. O personagem é extremamente pontual e mostra, de forma branda, uma crítica a ideia de cultura e a ideia do que é arte e como esta muda mesmo com resistência. É ele que dá vida a uma das cenas mais interessantes do longa.

Um dos pontos de destaque do filme é o figurino, principalmente os figurinos de espetáculo. Todas as roupas mostram que foram muito bem pensadas desde o tecido até as cores, tudo para caber melhor no espetáculo que é o filme e na personalidade dos personagens. O roteiro em si é redondo, porém não é diferente daquilo que você está acostumado a ver. É uma celebração da criação do showbusiness e ele é escrito para vender a ideia de que o meio pode ser um lugar onde suas peculiaridades são o que você tem de melhor. Porém, ele não tenta te convencer que o caminho para brilhar é fácil e que todos entenderão que a sua diferença é uma forma de arte ou de expressão, ele  mostra que mesmo que você ache o seu lugar você ainda pode continuar sendo marginalizando, restando apenas celebrar e aceitar quem você realmente é.

O Rei do Show é um filme bonito sobre ir atrás dos seus sonhos e não ter medo de ser quem você é. É uma filme para família, um grande espetáculo dentro da telona.

O filme estreia no dia 25/12.

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