Pequena grande vida – Crítica

 

O novo longa do diretor Alexander Payne, Pequena grande vida, é grandioso tecnicamente, mas ele acaba se perdendo demais na tentativa de forçar uma reflexão sobre a sociedade atual. A ideia é simples e brilhante: cientistas descobrem a fórmula de encolhimento dos humanos e decidem utilizar esta técnica para solucionar os diversos problemas mundiais, como a superpopulação, exploração de riquezas naturais até a escassez de alimentos.

Resultado de imagem para Pequena grande vidaNo primeiro ato, quando acontece a apresentação da descoberta, já deixa claro para o espectador que o filme se rotula como uma ficção científica séria, mas, no decorrer da trama, você percebe que o tema é levado com leveza. Aliás, os momentos cômicos são inseridos de forma muito inteligente. Payne consegue criar uma atmosfera impressionante e bem detalhista e logo o espectador se conecta com o mundo apresentado. A explicação “realista” dentro da narrativa é muito fascinante em seu desenvolvimento. Logo vem a discussão moral: o encolhimento foi concebido para salvar oplaneta, mas as pessoas só se interessam em multiplicar seu dinheiro (e surgem questionamentos sociais, psicológicos e até filosóficos até interessantes). O filme foca na história de um casal, Paul (Matt Damon) e Audrey Safranek (KristenWiig), que decidem encolher e viverem em um novo mundo chamado Leisureland. Essa civilização encolhida consome muito menos recursos naturais, são todos simpáticos e receptivos, taxa de violência zero… Até que Paul descobre as ‘pequenas’ consequências desse novo estilo de vida. Falando assim parece até um episódio de Black Mirror. Só pra deixar claro: em alguns aspectos é bizarro, mas nem tanto.

Resultado de imagem para Pequena grande vidaÀ medida que o fim se aproxima, o longa vai se afastando da proposta descontraída e começa a entrar em um viés emocional muito raso e previsível. Alguns plots inseridos no segundo ato acabam ficando esquecidos ou mal resolvidos. Idéias tão instigantes que infelizmente talvez não sejam bem aproveitadas como deveriam, em uma narrativa que provavelmente falte a complexidade que seu riquíssimo visual cria. O problema nem está na interpretação deDamon, que como sempre se mostra bem integrado e carismático. É um cidadão exemplar que acaba deprimido pelas más escolhas de sua vida. Tudo o que Paul quer é encontrar o seu lugar no mundo e sua razão de viver. Mas, não passa muito disso. A interpretação de Hong Chau, que interpreta Ngoc Lan Tan, é imprevisível e rouba todas as cenas em que aparece. Eu vi o filme dublado e achei a dublagem fantástica. Acredito que no original ela deva arrasar nas cenas de destaque. Muitos devem achar que ela tem um estereótipo forçado e irritante. No entanto, ela se mostra muito mais complexa e rica do que aparenta num primeiro momento.

Outro destaque do elenco é Christoph Waltz, que interpreta o vizinho rico e doido de Paul. Como sempre, sua presença na telona é marcante e seu personagem é o alívio cômico cínico. Aliás, quem consegue fazer uma melhor cara de cínico que Christoph Waltz? Ninguém. Repensar o mundo, construindo uma alternativa de futuro e trazendo uma relação entre utopia e distopia é válido. Porém, apenas o conceito não é a garantia de um bom filme. Seu ritmo é bem vagaroso. Poderiam inclusive diminuir o tempo de duração do filme (cerca de 2h15). Não tem necessidade. Só cria altas expectativas, que, no fim das contas, frustra no desfecho.