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Vale a pena ver | Dope: Um Deslize Perigoso

Iniciando-se com uma narração em off de Forest Whitaker, Dope: Um Deslize Perigoso logo me lembrou da série Cara Gente Branca e essa relação não é de se estranhar. Em termos estéticos, o filme se assemelha bastante a um episódio da série, com um roteiro que aborda questões extremamente relevantes a respeito do papel do negro na sociedade atual. Apesar disso, o filme é muito mais do que isso.

Ao longo da trama, observamos ele flertar com os mais diversos gêneros, mas, se tivéssemos que enquadra-lo em algum, provavelmente ele entraria para a comédia, mais especificamente para o subgênero dos filmes de adolescente. Isto porque temos como protagonista Malcolm (Shameik Moore), um jovem de Inglewood, California.

Apesar de viver em um bairro perigoso, ele é um rapaz exemplar, que tira notas altas, sonha em ir para Harvard e adora cultura geek e, por isso, sofre bullying na escola. Ele possui dois amigos inseparáveis Diggy (Kiersey Clemons) e Jib (Tony Revolori) com quem ele compartilha o amor pelo hip hop dos anos 90 e juntos tocam em uma banda, a Awreeoh.

Entretanto, como já alarmava Tupac em California Love: “Inglewood always up to no good” (Inglewood, sempre aprontando alguma – tradução livre), basta virar uma esquina errada e você pode arranjar algum problema e é justamente isso que Malcolm encontra. Ao encontrar com o traficante local Dom (A$AP Rocky), os três jovens vão a uma de suas festas, mas, durante uma troca de tiros entre traficantes e policiais, eles acidentalmente levam uma mochila lotada de MDMA para casa. Agora os jovens precisam dar um jeito de se livrar de toda essa droga, antes que eles corram risco de vida.

O interessante de Dope: Um Deslize Perigoso é que o filme consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente atual e nostálgico. Como os personagens principais são fissurados pela cultura dos anos 90, vemos figurinos que parecem retirados da época se mesclando com coisas como iPhones, deepweb, redes sociais, que criam uma sensação de atemporalidade para o filme. A própria trilha sonora também realiza esta mescla, com músicas autorais da banda misturadas a músicas dos anos 90. 

O roteiro de Rick Famuyiwa é bem interessante e original. O filme parece algo tirado de um roteiro de Quentin Tarantino, só que sem a violência explicita e misturado com doses homeopáticas de Superbad. Há algumas partes em que o humor é gráfico e escatológico, mas, na maior parte do tempo, é um humor negro, sarcástico e sagaz. Além disso, a empatia pelos personagens é instantânea. O roteiro os desenvolve muito bem e de forma extremamente naturalista e crível. Entretanto, há alguns deslizes no roteiro, que, em alguns momentos, acaba sendo expositivo demais. 

Entretanto, não é necessário apenas um personagem bem escrito para termos empatia por ele, as atuações devem estar a altura destes personagens e, nesse quesito, o filme não deixa a desejar. Shameik Moore está impecável, é impressionante o que este rapaz faz com seu personagem, ele é o centro do longa e carrega o filme com as costas. Kiersey Clemons e Tony Revolori são personagens periféricos, mas têm seus momentos de brilho como alívios cômicos e suportes para Malcolm.

A fotografia de Rachel Morrison é uma beleza a parte, para criar este tom nostálgico e noventista, vemos o uso excessivo de cores vibrantes para emular a extravagancia da época. Além disso, temos uma edição ágil e frenética, com cenas com cortes paralelos, uso de efeitos rewinds para mostrar flashbacks e inserções gráficas para mostrar mensagens e coisas do gênero.

Nosta 4.5/5

Enfim, Dope: Um Deslize Perigoso é um filme extremamente relevante que passou longe do radar de muita gente. Ele possui um propósito de quebrar o esteriótipo do personagem jovem e negro nascido em periferias e realiza isso com maestria. É um coming of age interessante e divertidíssimo. Um excelente filme para se assistir. Espero que tenha convencido vocês a assisti-lo e aproveitem enquanto está na Netflix!

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