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Vikings: Quarta Temporada – Crítica

Bom, para começar, já vou logo concluindo que fiquei chocado com a ousadia que foi apresentada nesta última temporada – não estou dizendo que fez bem, mas também não estou dizendo que foi ruim. Eu chegarei lá.

Travis Fimmel (o Lothar de “Warcraft”) que interpreta Ragnar Lothbrok.
Para quem não conhece o seriado Vikings, do canal History Channel, se trata de um enredo com leve embasamento em relatos, lendas e em liberdade criativa. No começo foi fácil, contar a história do lendário Ragnar Lódbrok e seu sonho de fazer o nome dos nórdicos ser conhecido por todo o mundo. Inúmeros são os relatos ou falácias sobre os feitos dos nórdicos e do misterioso Ragnar, o qual ainda não é concluído se o nome referia-se a uma só pessoa ou a várias, mas uma das principais técnicas de adaptação é reunir personagens com a mesma função em um só e foi bom até a chegada de seu desaparente desfecho no fim da terceira temporada.
Não é spoiler dizer que um personagem histórico morre, mas sim dizer como acontece e quando. Portanto, fique tranquilo se você está lendo este artigo e ainda não alcançou a série, pois será livre de tais spoilers. No entanto, existe mais de um relato ou boato sobre a morte do lendário ou do histórico Ragnar que inspirou o até então protagonista da série. É inconclusiva e fica a trabalho dos produtores escolherem a melhor forma de dar o desfecho ao personagem e acredito que a melhor chance foi perdida antes da quarta temporada.

Apesar da liberdade criativa para com o parentesco de Rollo com Ragnar, o seriado acertou na adaptação verossímil com seu destino a se tornar Lorde na Normandia.
Nesta, somos reapresentados ao Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel) após sua incursão a Paris, na qual deixa seu irmão Rollo (Clive Standen) – o qual personagem histórico que o inspirou não tem aparente ligação com o que inspirou o protagonista, mas este sim o canal acertou em cheio na adaptação verossímil – para cuidar dos assentamentos no terreno franco. O Imperador Carlos (Lothaire Bluteau) faz um acordo com Rollo para que este se torne um duque e case com sua filha Gisla (Morgane Polanski) em troca de defender Paris contra as próximas incursões dos vikings. Obcecado pelo retorno a Paris, Ragnar reúne um exército maior para a incursão, porém existem distrações que enfraquecem o líder.
A começar por seu casamento com a Rainha Aslaug (Alyssa Sutherland) que perdeu força após a misteriosa traição, também o complô contra sua família envolvendo forças do usurpador Conde Kalf (Ben Robson) e Erlendur (Edvin Endre), filho do antecessor Rei Horik e o novo personagem, o Rei Harold (Peter Franzén) que tem a ambição de conquistar a Noruega e se alia a Floki (Gustaf Skarsgård), o qual, amigo de longa data de Ragnar, sente-se magoado por este o condenar ao castigo de Loki após ter matado outro importante personagem por ciúme, alegando ser a vontade dos deuses. Somado a isto, as consequências da cólera adquirida na incursão de Paris que quase matou Ragnar o levou a considerar uma droga chinesa apresentada a ele através da influente Yidu (Dianne Doan), também nova personagem, que chega a Kattegat carregada como escrava desde Paris e que alega ser filha do Imperador da China.

Os filhos de Ragnar e Aslaug. Da esquerda pra direita: Hivtserk, Ivar Desossado, Ubbe e Sigurd Cobra-no-Olho.
O vício leva Ragnar a tomar decisões errôneas, as quais trazem a iminente derrota dos nórdicos somada às novas táticas de defesa dos francos adquiridas pelos conhecimentos de Rollo como estrategista. A temporada percorre apresentando ao expectador a evolução dos filhos de Ragnar, que a série não hesita em deixar óbvio que serão os protagonistas na próxima temporada, em especial com Ivar Desossado (Alex Høgh Andersen), que chega a ser cansativa a superexposição do garoto deficiente e tão prometido conquistador que carregará o futuro dos planos de Ragnar para contra o mundo.
A série então peca em algumas decisões – semelhantes às tão criticadas do seriado da HBO que compartilha de alguns mesmos fãs, Game of Thrones. Decisões que vão desde a esticar a liberdade criativa – a qual raramente vejo como problema, mas desta vez faltou em coerencia – baseada em números de audiência e em planos de longa data. Uma das maiores comparações de ambas as séries sempre foi a diferença no apego ao protagonista – logo que Game of Thrones não o tem – e a quarta temporada tenta se diferenciar das anteriores testando o desapego aos protagonistas a alguns limites tardios, os quais levaram inclusive a decisões fracas de roteiro para o desfecho de, não só alguns, mas metade dos personagens. Pode-se dizer de maneira mais informal que a temporada serviu de chacina para o elenco, e que isso não necessariamente significa um amadurecimento da história como alguns pensam, pelo contrário, pois os desenvolvimentos de novos personagens incluídos para substituir outros são tão frágeis que desprendem do interesse e da impecável linha que a série conquistava na ótima terceira temporada – bem como eu disse no início, alguns desfechos deveriam ter sido aproveitados mais cedo.

No canto direito, um dos navios anfíbios desenvolvidos por Floki para batalha corpo-a-corpo sobre as águas.
O seriado também ainda peca na direção de batalhas, mas surpreende em exibição, apresentando novas táticas de guerrilhas até então não exploradas – bato palmas para os terrenos anfíbios construídos para batalha corporal sobre as águas e também para a brilhante estratégia para contra o exército de Wessex, na segunda parte da temporada. Porém, a liberdade criativa leva a algumas inconclusões. Existem assuntos simplesmente esquecidos e outros que ganham mais importância do que poderiam – aparentemente despercebido pelos showrunners na edição final, além de que arcos que se estendem mais do que deveriam acabam perdendo a genialidade. Tudo leva a crer que o seriado, que antes tinha o intuito de servir como entretenimento histórico, passou a se basear menos na fonte e mais no espectador – eu entendo perfeitamente que vivemos uma época difícil para os estúdios, onde existe a internet e todo mundo está ligado nas críticas e opiniões do público, porém, acredito que muita coisa seria de muito maior preciosidade se viesse como originalmente planejado.
Mas há esperança, pois se o estúdio ouve mesmo o público, muito pode ser melhorado para a próxima temporada. Vale lembrar que a série também está seguindo a linha de seriados históricos que abordam temas de inclusão com o feminismo – é o quinto que vejo nesse último ano – e desperta maravilhosos diálogos que incluem a surpreendente personagem Judith (Sarah Greene) que cria uma força ainda maior nesta última temporada. Contudo, os erros podem ser redefinidos fazendo-os parecerem pérolas para a série. É aguardar pela genialidade dos showrunners na vindoura temporada que o episódio final fez prometer como – possivelmente desinteressante, mas espetacular caso seja acertado.
Nota: 4/5.

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